9 de março de 2016

Carros X Não Carros - A Bicicleta na Cidade

Por: Daniel Guth, diretor de Participação da Associação de ciclistas urbanos de São Paulo e líder da Rede Bicicleta para Todos. Escreve para Folha de São Paulo - Blog sobre mobilidade urbana e bicicletas
      
A literatura sobre mobilidade urbana está repleta de terminologias e conceitos que dizem pouco sobre a mobilidade em si e muito sobre a nossa subserviência ao modelo rodoviarista vigente durante a maior parte do século XX.
      
      Modelo rodoviarista que, infelizmente, ainda povoa nosso imaginário e coloniza a linguagem e que pode ser observado, por exemplo, ao abrir o jornal e se deparar com a frase “Homem morre em acidente e motorista arrasta bicicleta por 30 km”; ou quando nos surpreendemos, em um evento público do Ministério das Cidades, com técnicos(as) se referindo às bicicletas como “não motorizados” (como mostra esta apresentação oficial realizada em audiência na Câmara dos Deputados).
      O uso de termos supostamente técnicos e correntes como não motorizados, acidentes de trânsito, leito carroçável e usuários de bicicleta, suscitam uma discussão dialética importante sobre a mobilidade urbana contemporânea.
O Código de Trânsito Brasileiro (lei nº 9.503/97), já em seu artigo 1º evidencia o que tecnicamente é entendido como trânsito:
§ 1º Considera-se trânsito a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga.
      Ora, se o Código de Trânsito Brasileiro considera trânsito a utilização das vias por pessoas, por que, então, as terminologias da mobilidade são norteadas por vocábulos e conceitos relativos ao modos motorizados de transporte?
      Trata-se, mais uma vez, não de uma problematização inócua e exagerada, mas sim de uma agenda importante de afirmação do que a própria lei maior sobre o trânsito já diz. O subjugamento à lógica rodoviarista a que nos sujeitamos diariamente nas ruas das nossas cidades – pedindo licença aos motoristas para conseguir atravessar uma rua, implorando ao poder público por segurança e conforto mínimos para poder se deslocar de bicicleta – só reforça a necessidade de uma revisão completa das terminologias e conceitos sobre mobilidade urbana, ainda hoje devotados aos carros e seus condutores e planejadores.
      Os tópicos abaixo não visam a esgotar o assunto, mas propõem uma reflexão entorno do debate necessário e contemporâneo sobre a linguagem e as práticas sociais na área da mobilidade urbana. 

Quer saber mais, acesse: http://abicicletanacidade.blogfolha.uol.com.br/2016/02/15/carros-vs-nao-carros/

0 Comentários :