3 de dezembro de 2015

Caminhar pelas cidades

      Temos medo de andar pela cidade. Esta é a triste realidade constatada em pesquisa recente da Organização
para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre o bem-estar em seus 34 países-membros, citada em recente artigo no caderno Aliás (Estadão) pela professora Fraya Frehse. Neste artigo, com o sugestivo título “Medo da rua”, a professora ressalta que a “associação entre insegurança e espaço
público é concepção recente, no Brasil urbano. Ao menos em alguns jornais paulistanos, a imagem da rua como lugar de perigo em função da violência só ganha vigor nos anos 1980”. Cabe perguntar: o que houve desde então para
que perdêssemos parte do prazer de caminhar por nossas cidades?




      O medo venceu o prazer. E pelo que se conclui, andar tornou-se um desafio em tempos de violência. Mas seria apenas a violência (insegurança) a explicar este temor? Em qualquer cidade brasileira o ato de caminhar tornou-se por si só um desafio. Pesquisa de Imagem dos Transportes na Região Metropolitana de São Paulo 2012, da ANTP, já detectava isso. Como sintomas da ausência de segurança e da má qualidade dos serviços urbanos e de estrutura,
ela indicava (citado pelo usuário) a “falta de policiamento, medo de assalto, presença de mendigos / drogados /‘nóias’na rua”, além de “ruas desertas com pouca gente no local”. Calçadas esburacadas, além da presença de lixo
na rua, somado a ruas escuras e falta de iluminação, foram citações determinantes do usuário da ausência de serviços urbanos e de estrutura em sua primeira etapa da porta de casa à condução. Pontos de ônibus sem abrigos e mal cuidados e grande distância a percorrer, foram também citados na pesquisa de imagem.
      E se na calçada os riscos já são grandes, ao atravessar a rua o perigo aumenta exponencialmente, graças às condições de sinalização amplamente favoráveis aos automóveis, como tempos exíguos de travessia – o pedestre mal consegue alcançar o meio da rua –, ou, pior ainda, o tempo absurdamente grande de espera para abertura do sinal.
      Não era para ser desta forma, mas no Brasil “ser pedestre” tornou-se antagônico a “dirigir automóvel”. Como se fossem opostos, integrantes de tribos estranhas e rivais, eles disputam o espaço público a cada centímetro, disputa
que repercute na sinalização e nos semáforos, semáforos que historicamente priorizaram o movimento dos veículos em detrimento das pessoas.
Pedestres e motoristas não são diferentes apenas no modo de se locomover, mas principalmente na maneira como o estado brasileiro investiu em infraestrutura para cada qual dos modos. Chega a ser absurda a comparação.
Mas há mais a dizer... Uma pesquisa realizada pelo Ipea, com a coordenação da ANTP em 2003 (Impactos Sociais e Econômicos dos Acidentes de Trânsito nas Aglomerações Urbanas), estimava que entre 2002 e 2003, 9 a cada 1000 moradores de aglomerações urbanas brasileiras haviam sofrido quedas como pedestres. O custo médio de resgate e tratamento de cada um deles era estimado em R$2.656,00. São os acidentes de trânsito “invisíveis”...
      Além de tudo isso, pode-se afirmar sem medo de erro que carro faz mal à saúde, e não apenas por causa do ar poluído e da poluição sonora. As doenças que o sedentarismo tem provocado – hipertensão, obesidade e diabete –,
perfilam ao lado dos distúrbios psiquiátricos como as epidemias do século 21. O remédio? Caminhar, pedalar, usar transporte público... Não cura, mas diminui em muito os riscos.
      Mas na lógica humana (e urbana) argumentos como os apontados acima não convencem, tampouco mudam hábitos e costumes. O debate que se estabeleceu recentemente sobre a abertura da Avenida Paulista para
as pessoas, fechando-a para os carros, é uma evidência de que precisamos caminhar muito ainda para conseguir transformar nossas cidades.
      A ANTP criou a Comissão Técnica de Mobilidade a Pé e Acessibilidade, que vem realizando um amplo debate sobre o tema, além de fornecer subsídios e diretrizes para o desenvolvimento de legislação e políticas públicas. Este
Seminário é nosso mais novo passo na discussão e reflexão sobre a importância do caminhar nas cidades.

Luiz Carlos Mantovani Néspoli - Superintendente da ANTP

http://www.antp.org.br/_5dotSystem/download/dcmDocument/2015/11/27/A0850675-28AD-46DC-9B57-664DF1BA766A.pdf

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