4 de setembro de 2015

O comportamento das pessoas: fator determinante para uma vida melhor- não só para a sociedade

      Recorrentemente, andando nas ruas de São Paulo,  é possível ouvir alguém dizer que viver em São Paulo é desgastante. O preço das coisas, a miséria da desigualdade saltando aos olhos, o trânsito....
      No entanto, também é possível ver essas mesmas pessoas que há pouco reclamavam das péssimas condições de vida na metrópole, serem as primeiras a terem todo tipo de comportamento egocentrista e autocentrado , e que acaba por se tornar nocivo de formas às vezes fatais, num simples caminho para o trabalho. 

      Não é incrível como reclamamos das coisas cotidianas pensando no que sofremos como indivíduo, mas justificamos o que fazemos para a sociedade sem querer então pensar de forma coletiva? Émile Durkheim,  filósofo e sociólogo referência das Ciências Sociais, ficou conhecido exatamente por ter posto em relevo esta dicotomia dos estados de consciência coletiva e sua natureza diferenciada dos de consciência individual: o que sofremos não é o suficiente para nos fazer agir tal como resmungamos diariamente em nossas falas estressadas sobre cidadania e respeito.
      O que, então, faz com que as mesmas pessoas que trocam violência para pegarem um trem, bradem também a desnecessidade disso tudo? Afinal,  se desejamos todos um cotidiano menos massacrante, por que não conseguimos torná-lo real?
      O antropólogo e educador popular Tião Rocha diria que a real transformação tem de partir das próprias pessoas. Em entrevista à revista Página 22, publicação da Fundação Getúlio Vargas, afirmou: “Para tudo nós dizemos “isso é do governo, isso é do mercado e isso é da sociedade. Precisamos de um Setor Zero, no qual os indivíduos são os produtores de políticas públicas não governamentais. É um salto fundamental.”
      De alguma forma, parece que as pessoas se acostumaram a esperar soluções vindas do governo ou da sociedade como se elas mesmo não fizessem parte dela- e segundo os grandes estudiosos da cultura brasileira, isto parece ser uma postura recorrente do povo brasileiro, por motivos histórico-sociológicos vários e complexos. Mas retomando ainda outro conceito importante de Durkheim, se as pessoas estão de fato descontentes com o que quer que esteja acontecendo, elas haveriam de mobilizar-se para que isto mude- movimento recorrente nas explosões de revoluções que conhecemos na História. Do contrário, o que parece estar posto e indicado é que elas não estariam assim tão incomodadas quanto dizem estar. 
      Um caso interessante é o da lei antifumo. Dados recentes indicam que o consumo de cigarros caiu em 49% após o início da campanha, e que 1 em cada 5 multas é fruto de denúncia  da própria população. Ou seja, apesar de ter sido uma política pública, ela era uma política que dependia muito da participação popular, e qual não foi a surpresa de todos os inimigos da medida, quando viram o tamanho da aprovação e a manutenção da medida pela própria população; incluindo muitos fumantes, que viram na medida uma “possibilidade de tentar parar”.
      Talvez as pessoas pudessem, então, procurar ver as inovações nas políticas de mobilidade urbana como possibilidades de tentativa também. Pensar na ciclovia como renovação da malha viária, ao invés de estorvo no estacionar onde quero. Aderir ao pedestrianismo, ao invés de criticar o aumento de IPI limitador na compra do automóvel. Falamos tanto de um padrão de vida desenvolvido, mas não queremos ver possibilidades diferentes das que já conhecemos- principalmente se elas perturbam nossa sagrada rotina- aquela, justamente tão estragada pelo nosso comportamento estressado nosso de todo dia; não é contraditório?
      A medicina discute hoje, cada vez mais, justamente os efeitos de viver esta vida desgastante todos os dias, e os efeitos do que vivemos no trânsito anda sendo um indicador preocupante. O Prof. Dr. Paulo Saldiva, Professor Titular de Patologia da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador de longa data dos efeitos da urbanidade na saúde do homem contemporâneo, desenvolve recentemente, um trabalho de divulgação dos dados alarmantes que conseguiu em suas pesquisas: em suas palestras sobre o tema, revela que a maior causa de infartos no mundo, hoje, é ficar preso no engarrafamento- a chance de infarto sobe duas vezes e meia. E este número infelizmente não parece querer diminuir, quando andando pela cidade vendo o que vemos e ouvindo o que ouvimos diariamente numa cadência contínua que parece inquebrantável.
      As pesquisas e os órgãos de administração da sociedade estão aí para nos ajudar. Mas a sociedade, é antes de tudo, feita por pessoas. E a  luta por uma qualidade de vida  diária, médio e longo prazo melhor para  nós, indivíduos desse mundo caótico , tem, necessariamente, de partir delas. Lembrando ou não disso, estamos imersos num mundo coletivo. E  para que a sociedade se transforme, temos nós de nos transformar primeiro. Se não determinamos a realidade em que vivemos, certamente podemos tentar determinar a realidade que buscamos viver.

Julia Romera, estudante de Ciências Sociais na Fundação Escola de Sociologia e Política, e estagiária na CET SP

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