15 de maio de 2015

Pesquisa sobre Educação de Trânsito em 22 países mostra que estamos no caminho

   
      Cerca de duas mil crianças morrem vitimas de acidentes de trânsito a cada ano, segundo dados brasileiros mais atuais do Ministério da Saúde – Datasus 2012. A principal causa é a criança como pedestre (584 mortes), seguido de passageira de veículo (547 mortes), depois passageira de motocicleta (170 mortes, sendo o que mais cresce), ciclista (136) e outros (425).
      As experiências no mundo, segundo Manual de Treinamento para Prevenção Lesões Causadas Pelo Trânsito de Organização Mundial de Saúde, mostram que umas das estratégias mais eficazes para reduzir esses números é a formação de profissionais para a educação de trânsito.
      Com o objetivo de comparar as ações do Brasil para a educação de trânsito e pensar novas ações de prevenção aos acidentes de trânsito com crianças, a CRIANÇA SEGURA ouviu através de questionário eletrônico 22 países da rede mundial Safe Kids Worldwide, da qual a Ong faz parte. O questionário foi preenchido pelos gestores das instituições, sendo elas organizações não governamentais e governo.
      Os países que preencheram a pesquisa foram: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Austrália, Áustria, Brasil, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, Filipinas, Índia, Israel, Japão, Jordânia, México, Qatar, Quênia, Sérvia, Tailândia, Uganda, Uruguai e Vietnam.
      O meio de transporte mais utilizado segundo os respondentes foi veículo quatro rodas (Alemanha, Arábia Saudita, Austrália, Áustria, Coreia do Sul, Estados Unidos, Filipinas, Israel, Japão, Jordânia, Qatar, Sérvia e Uganda), transporte público de superfície (África do Sul, Brasil, China, Índia, México, Uruguai), motocicleta e ciclomotores (Tailândia e Vietnam) e caminhar (Quênia). Ninguém respondeu metro e bicicleta.
      Quando perguntados se suas organizações fazem algum programa de educação de trânsito, 21 dos países responderam que sim. Somente a Alemanha argumentou que não faz, porque existem diversas ações de outras organizações que são muito eficazes. Entre outras organizações do país que também fazem ações de educação de trânsito, a resposta de múltipla escolha mais apontada foi Ongs (19), seguido de Polícia e Departamentos Governamentais de Trânsito (18 cada), Organizações de Educação (15), Empresas Privadas (15), Centros de Formação de Condutores (13) e de Saúde (8).
      Os temais tratados nos programas de educação de trânsito e o número de respostas foram: Segurança da Criança Pedestre (19); Segurança de Passageiros em Geral (18); Redução de Velocidade (18); Álcool e Direção (16); Crianças Passageiras de Veículos, Capacete para Bicicleta, Capacete para Piloto de Motocicleta e Novos Motoristas (12); Capacete para passageiros de Motocicleta (10); Distração ao Volante (9); e Distração ao Caminhar (5). No Brasil, o programa Vida No Trânsito do Ministério da Saúde, definiu as duas causas escolhidas para se trabalhar são Redução de Velocidade e Álcool e Direção.
      O público dos programas de educação de trânsito são primeiramente crianças (22), Motoristas (19), Pais e Educadores (15), Profissionais de Educação (14), Profissionais de Trânsito (11) e Profissionais de Saúde (7). Se os professores recebem treinamento para trabalhar educação de trânsito em sala de aula, 13 países responderam que sim. Somente a África do Sul, China, Quênia, México, Sérvia e Uruguai disseram que não, e Estados Unidos, Japão e Qatar não souberam responder.
      Se a educação de trânsito é parte do currículo escolar, a maioria respondeu que sim (África do Sul, Alemanha, Austrália, Áustria, Brasil, China, Filipinas, Israel, Sérvia, Tailândia, Uganda e Vietnam). Sendo os países onde não faz parte do currículo escolar a Arábia Saudita, Coreia do Sul, Estados Unidos, Índia, Japão, Jordan, México, Quênia e Uruguai. Qatar disse que não sabe. Porém, alguns destes países, mesmo sem ser obrigatório, fazem ações contínuas de educação de trânsito nas escolas, como Estados Unidos e Japão.
      O único país que respondeu não ter dados de mortes e lesões de trânsito foi Quênia.
      Sobre licença para dirigir relativo a cada tipo de veículo, as respostas foram as seguintes: Carros / Vans / SUVs e Caminhonetes (19) - não obrigatório na Áustria, Filipinas e Tailândia; Caminhões Comerciais (18) - não obrigatório na Áustria, China, Filipinas e Tailândia; Ônibus (17) – não obrigatório na Áustria, China, Filipinas, Qatar e Tailândia; Motocicletas (16) – não obrigatório na África do Sul, Arábia Saudita, Áustria, China, Quênia, e Tailândia; Ciclomotor (5) – obrigatório na Alemanha, Austrália, Áustria e Índia; e Bicicletas (2) – obrigatório em Israel e Uganda.
      Com relação as idades, o Brasil se equivale aos países mais rigorosos, com idade de 18 anos e 21 para profissionais, porém não exige licença para bicicleta e ciclomotor. Nos Estados Unidos da América, os adolescentes a partir de 14 anos já podem tirar licença para dirigir. Sobre a obrigatoriedade de se fazer testes, 20 responderam que sim. Somente o México respondeu que não é obrigatório fazer teste para ter carteira de motorista. O respondente do Quênia não soube responder.
      Sobre campanhas na mídia, 18 países responderam que existem campanhas, o Uruguai disse que não existe, Coreia do Sul e Índia não souberam responder.
      A conclusão para esta pesquisa mostra que o Brasil está equivalente aos países desenvolvidos, com obrigatoriedades e ações de educação. Porém o que se questiona, segundo a coordenadora da CRIANÇA SEGURA, Alessandra Françoia, é a qualidade dessas ações e o tamanho do investimento. “Estamos no caminho certo em relação a educação de trânsito, como os países que atingiram reduções satisfatórias de lesões no trânsito, mas ainda precisamos de maior cobertura e qualidade das ações educativas e da correta aplicação das leis para preparo dos novos motoristas". A Organização Mundial de Saúde prega que educação sozinha não funciona. É preciso um trabalho multifacetado, abrangendo infraestrutura, fiscalização, atendimento de emergência, como organiza os cinco pilares da Década de Ação para Segurança Viária.
ANALISE DO SR. EDUARDO BIAVATI, SOCIÓLOGO E CONSULTOR DE TRÂNSITO
      "Educação para o trânsito” é uma daquelas raríssimas certezas absolutas que compartilham leigos e técnicos, cidadãos comuns e gestores públicos. Sem ela como construir uma cultura de paz e conquistar um trânsito mais equânime, saudável e seguro?
      Queremos “educação para o trânsito”, mas a contagem crescente de mortos e feridos no trânsito brasileiro, confirmada mais uma vez pelos novos dados nacionais de 2012, aponta que entre a unanimidade e a realidade a distância tem sido enorme, e cada vez maior. 
      A “educação para o trânsito” é ineficiente ou simplesmente insuficiente no Brasil? Estamos mesmo tão distantes de outros países? Quais são nossas lacunas, à luz da experiência de outras sociedades? 
Respostas para essas e várias outras questões são o resultado de um survey conduzido entre diversas organizações internacionais, membros de uma rede global dedicada à prevenção de acidentes com crianças, representando 22 países.   
      Colocado em perspectiva comparativa internacional, o Brasil vai muito bem, responde, em síntese, a sondagem. Estamos entre os países que possuem um currículo nacional de educação para o trânsito, desenvolvem educação para o transito desde a infância até o final da Educação Básica, formam docentes para implementar educação para o trânsito, possuem um sistema de habilitação nacional, contam com campanhas públicas de prevenção sistemáticas. 
    É um resultado surpreendente: muito pouco parece nos faltar em comparação com a Alemanha ou a Austrália e, em muitos aspectos, com os Estados Unidos da América. E se fazemos o mesmo e quase tudo igual, restaria-nos, então, investigar a qualidade do que fazemos aqui para compreender por que chegamos a resultados tão díspares e, principalmente, tão pouco sustentáveis ao longo do ciclo de vida dos sujeitos: a partir dos 15 anos de idade, a mortalidade no trânsito quadruplica no Brasil e não para de se agravar até o final da terceira década de vida dos cidadãos.
      A sondagem tem o mérito, portanto, de nos colocar, mais uma vez, nus diante de velhos problemas: temos várias peças de um mesmo quebra-cabeças, mas pouquíssimo sabemos como essas peças se encaixam, ignoramos se elas sequer “costuram” um quadro interinstitucional e intersetorial coeso e, mais ainda, se a imagem final é apenas uma miragem que tem salvo a infância, mas não ultrapassa o final da adolescência.


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