17 de setembro de 2014

6º Prêmio CET de Educação - Ganhadores: Categoria 3ª Idade - Crônica

1º Lugar - HASAYCHI HAYASHIDA

Cidadão verde e amarelo


      Eram meados de 1962 quando meu avião aterrissou em solo brasileiro. Eu tinha exatos treze anos e era a primeira vez que saía do meu país. Meu pai, brasileiro, morou cerca de trinta anos no Japão e nesse tempo conheceu o amor da sua vida, minha mãe, e constituiu família. Trabalhou duro por anos e de repente, meu pai e mais inúmeros funcionários começaram a ser substituídos por máquinas. Não sobrou alternativa a não ser voltar para o país de origem. Só conhecia o Brasil pelas histórias contadas por papai. Ali estava eu na janelinha do avião inspirado por tantas e tantas histórias de ninar ali na minha frente, e dali dava para ver as luzinhas dos carros, o tráfego intenso da grande São Paulo. No táxi pude ver mais de perto a terra da garoa... Muitos carros, muitas motocicletas, muitas pessoas comemorando que o Brasil era bicampeão na Copa do Mundo em plena paz. Havia verde e amarelo por todos os lados, era um país do carnaval, festa e futebol, literalmente. Pensei em como o povo brasileiro sempre foi muito receptivo, cordial, unido... E a união faz com que todos saiam ganhando em todas as facetas da vida... Hoje, ao tentar atravessar a rua por mais de maia hora, pensei nessa minha antiga filosofia sobre os brasileiros e essa terra que me acolheu tão bem e que quase me atropelou agora, depois de inúmeras buzinadas, mesmo eu estando na faixa de pedestres... Se o Brasil precisa ganhar em cidadania? O “trânsito” paulista certamente! Estamos em época de Copa do Mundo, em busca do hexa campeonato e muita coisa mudou: a frota de veículos aumentou na cidade, novas linhas de metro foram instaladas, fura-fila, motoboys, caminhões e ciclistas por todos os cantos e de todos os cantos do país... Está na hora de respeitar a sinalização, resgatar o amor pelo próximo, aproveitar todo o desenvolvimento que São Paulo nos dá, só assim, poderei olhar para o futuro dos meus netos brasileiros e torcedores e torcer para que eles tenham a consciência de que na Copa e no trânsito ninguém ganha sozinho, é preciso paz, gentileza e respeito. Tendo o samba como sonoplastia da minha história, meu coração tornou-se brasileiro, um cidadão verde e amarelo que espera que o futuro do país seja melhor e que a cidadania, o bem maior e comum, possa ser exercida de forma coletiva para que todos os brasileiros sejam campeões na Copa e na vida.

2ª Lugar - ROSA ANGELA FALCE DE SOUZA

Na copa e no trânsito ninguém ganha sozinho!
      
      O jogo estava marcado para as 15h00. Todos sabíamos que era preciso sair com pelo menos 2h00 de antecedência, uma vez que o trânsito para o estádio se complicaria à medida que a hora fosse se passando. Vovô Vicente, aficionado que era por futebol, reuniu a garotada da rua e encheu a “Vemaguete” azul, partindo para o estádio. O carrinho ia até arreado, com os pneus muito baixos, carregando aquela meninada alegre e falante pelas ruas da cidade.
      Não tinha quem não olhasse tamanha algazarra! Era cantoria, assobio, cornetas e apitos, soando todos ao mesmo tempo! Era o sonho dos brasileiros ver o Brasil sagrar-se campeão!       Era o sonho daquela garotada pobre, que vestia a camisa verde e amarela, doada pelo empresário da fábrica de biscoitos, ver um de nossos jogadores levantando a taça sobre a cabeça, como fez Bellini em 1958, numa gelada tarde, em Estocolmo! E o Brasil ganhou de cinco a dois, dos donos da casa. Um orgulho, para nós brasileiros!
      O caminho era longo, e mais longo ficava devido ao movimento que ia aumentando aos poucos! Muita gente carregando bandeiras, pandeiros e surdos. Muitos com o rosto pintado em listras coloridas, em sua maioria verdes e amarelas. A cidade estava em festa! O Brasil estava em festa! Afinal de contas somos considerados o país do futebol.
      Quando chegamos na Av. Vinte e Três de maio, pusemos, quase todos juntos, ao mesmo tempo as mãos na cabeça! Uma fila enorme de automóveis parada! Nem que quiséssemos tentar outro caminho iríamos conseguir! Tudo parado e não dava para voltar! Toninho até chorou! Não se conformava! Não conseguia imaginar perder um jogo daqueles! Logo ele que jogava de atacante no timinho do bairro. Ele que tinha trabalhado suado durante dez meses para comprar o ingresso da abertura da Copa estava ali de mãos atadas sem poder fazer nada, vendo seu sonho de menino indo embora! Vovô ligou o rádio do carro! A voz do locutor, emocionada, dizia que dentro de alguns minutos a seleção brasileira entraria em campo. Foi um grito uníssono; AHHHHHHH!
      Era visível a frustração de todos! – Puxa vida! Fizemos de tudo para que desse certo. Saímos cedo de casa, programamos o itinerário, compramos os ingressos com antecedência e agora este imprevisto! De repente, a esperança renasceu! Os policiais do trânsito chegaram botando ordem na pista. Um automóvel quebrado impedia a passagem de um enorme caminhão, que por sua vez impedia o fluxo do trânsito. Muitos sinais, muitos apitos, só que agora sinais e apitos de ordem e organização. Em pouco tempo o trânsito deslanchou!   Conseguimos entrar em uma fila que andou rápida como um tufão! Uns dando passagem aos outros, respeitando cada um a sua vez. Foi um alívio para todos! Aquele clima de desânimo deixou de existir e um ânimo novo se estabeleceu dentro do carro! Este desafio estava ganho! Felizmente!
      Ia dar tempo! Ia dar tempo de ver o Brasil ganhar! Ia dar tempo de ver tremulando as milhares de bandeiras verdes e amarelas! Ia dar tempo de cantar o Hino Nacional com toda a força dos pulmões daqueles jovens! Ia dar tempo! Ia dar tempo de gritar: GOLLLLL!
      E vovô, muito altivo e cheio de si dizia: - Eu não disse que ia dar tempo! Ainda bem que na copa e no trânsito ninguém ganha sozinho!!!
            Naquele dia o Brasil ganhou! Ganhou o jogo e ganhou em civilidade também! 

3º Lugar - INGRID CHARLOTTE ANNEMARIE SARSTEDT MECKIEN

Duas vezes campeã

      Meu pé pisou forte no pedal do freio, obedecendo à fúria da luz vermelha do semáforo e dos olhos arregalados de uma assustada pedestre que eu por pouco não atropelara. O susto vinha em dobro. Pelo rádio ajustado no último volume, ouvia a pessimista narração do locutor que me informava sobre as também vermelhas camisas espanholas amedrontando uma acanhada seleção brasileira, nem de longe resquício daquela que por cinco vezes se sentiu à vontade em uma final de Copa.
      - Louca! – gritou a pobre senhora em seu direito. Por direito, aliás, eu lhe devia uma laranja perdida para o bueiro. Aquela que me fez lembrar a descartada Holanda, três dias antes, por um Brasil imponente e seguro de si.       Quando pensei em responder, a faixa de segurança já estava vazia novamente, em parte por causa da frente do meu carro, que a invadia.
      - Mais atenção... – pensei comigo mesmo. – Mais atenção, Brasil! – falei em direção ao rádio. Era notório que eu havia ignorado a luz amarelo ouro (a mesma cor da nossa vitoriosa camisa) que antecedera a situação vexatória.   Talento na direção e em campo havia de sobra, mas faltava atenção. O zagueiro não enxergava o seu companheiro da frente; o armador ignorava o posicionamento do centroavante. No trânsito, uma motorista igualmente desatenta quase acidentava a sua companheira de rua.
      Então veio a luz. Verde. A esperança que servia para eu seguir o meu caminho de forma mais segura e para continuar acreditando numa mística equipe que não era pentacampeã por acaso. O técnico sabia disso e orientava o capitão, pedindo mais espírito e união. Já eu buscava apenas poder me desculpar daquela que eu agora conseguia ver dobrando a esquina. Parei o carro, desliguei o rádio, desci e fiz um chamado inútil. Fones de ouvido ocupavam os ouvidos da minha quase vítima. Arrisquei um toque no ombro.
      - Perdão, senhora, mas eu só gostaria de lhe pedir desc...
      - Goooooooooooool! – Era o som mais esperado por mim depois de “Desculpas aceitas”. Acompanhado de um sorriso e um abraço, foi ainda melhor.
      O Brasil seria campeão e eu aprenderia a minha lição. Duas vezes campeã. E a dica era tão simples: sozinho não se chega a objetivo algum.

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