23 de agosto de 2014

Dia da Bicicleta

      Em 1971 crianças de todas as idades corriam e brincavam pelos bairros de São Paulo com suas bicicletas, exibindo no rosto nada mais do que a alegria de poder se divertir com o brinquedo preferido desta geração. Sentir o vento no rosto, fazer manobras incríveis para escapar dos buracos e das bolas de “capotão” que quicavam pelo mesmo espaço, ver passar a paisagem naquela velocidade estonteante e, às vezes, correr ainda mais para fugir do cachorro bravo. Tudo isso era  o máximo e o melhor  que se podia esperar de um dia comum. Nesta época, “tombo de bicicleta” não tinha importância nenhuma.     Não se falava dos machucados, cicatrizes e muito menos da dor. Ao contrário, mantinha-se este tipo de ocorrência em segredo para evitar complicações com a mãe. Não era prudente deixa-la nervosa ou ela acabaria proibindo a brincadeira.
      Talvez seja por causa de vivências assim que estas mesmas crianças, hoje crescidas e transformadas em adultos conscientes de seus deveres, têm hoje uma reação ambivalente em relação ao uso da bicicleta no espaço público. As opiniões dividem-se em muitos prós e contras, e as mesmas pessoas que brincaram no meio da rua quando crianças, hoje parecem oscilar entre a crítica e o apoio ao uso dela como modal de transporte. 
      A mesma geração que utilizou  a bicicleta como brinquedo, embora reconheça a sua adequação para o transporte, pode às vezes se indignar com a presença deste veículo na via pública, ora invejando a magnifica oportunidade de alguns de poder reviver a alegria e a emoção do passado, ora condenando que este veículo ocupe o espaço que aprendemos (equivocadamente) ser um espaço dos carros.
      O fato é que a bicicleta não é mais um brinquedo. Ela passou a ser um veículo cujo uso pode contribuir  consideravelmente com a mobilidade urbana em São Paulo. Ocupa menos espaço na via, não produz  poluição e ainda pode ajudar na melhoria da saúde de seus usuários. Devemos considerar, porém, que não somos mais a mesma cidade da década de 70. São Paulo não é mais a cidade da garoa, e em seus bairros quase não existe mais crianças jogando bola na rua. O tamanho da frota de veículos aumenta a cada dia, tanto que corremos o risco de assistir diante de nossos olhos a materialização concreta, em nossas ruas, da estrada imaginária do escritor argentino Julio Cortázar , onde a quantidade de carros é tão grande que o congestionamento impede as pessoas de seguirem as suas vidas, forçando-as a conviver no meio de uma estrada, comendo, dormindo e até morrendo dentro de seus veículos. 
      O aumento progressivo da poluição também é um fator de risco para a nossa sobrevivência no planeta. Ninguém duvida que as transformações climáticas e este início de escassez de água estão relacionados à poluição causada principalmente pelos veículos automotores. 
      Devemos então pensar urgentemente em formas inteligentes para a resolução destes problemas, começando pelos conflitos entre ciclistas e outros usuários da via, e também de outros conflitos relacionados à necessidade de compartilhamento de espaço público e de cuidados e preservação do meio ambiente.  

      Da mesma forma que se podia dividir  o espaço da rua com brincadeiras diferentes, dando a cada grupo de crianças o direito de se apropriar do que era seu, é justo e necessário dividir o espaço entre os diferentes usuários com seus diversos modos de transporte. É claro que é preciso regulamentar o uso da via pública e educar os cidadãos para que todos possam compartilhar este espaço e este planeta  de forma organizada, segura e sustentável. 
      A CET- Companhia de Engenharia de Tráfego trabalha para a divulgação de conceitos de mobilidade sustentável, oferecendo cursos a toda a população, dando oportunidade aos ciclistas, aos condutores de veículos automotores e também aos pedestres interessados em reaprender a transitar nas vias públicas, refletindo sobre como deve ser o nosso comportamento diante desta nova configuração do tempo. Não vemos mais crianças brincando nas ruas, nem pessoas conversando despreocupadamente nos parques ou bancos de praça, mas a necessidade de lazer, de convivência social e de transporte ainda é a mesma. Não deixamos de ser humanos. 
      Para encarar uma cidade que cresce dia a dia e que muda incessantemente seus paradigmas é necessário atualizar conhecimentos e rever conceitos e posturas pessoais. O planeta todo está em modificação. Não há como interromper esta mudança.
      Para a convivência produtiva e saudável entre as pessoas talvez seja interessante lembrar  como agiam aquelas crianças da década de 70.         Nenhuma delas condenava ou julgava a forma como cada um utilizava o espaço da rua, desde que se respeitasse a integridade e a dignidade de todos, pois seu objetivo era a alegria. E o outro, o diferente, era sempre somente alguém que trazia encantamento e interesse, por representar a possibilidade de mudança, companhia e crescimento.


[1] CORTÁZAR, Julio. In Todos os Fogos o Fogo, Rio de Janeiro-São Paulo: Editora Record/Altaya, 1995, p. 3 a 28.

Andrea Nunes - Psicóloga e  Educadora de Trânsito CET SP 

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