9 de maio de 2014

Mobilidade Urbana: Uma Questão de Gênero e Classe

      Em pleno funcionamento no Rio de Janeiro, Distrito Federal e mais recentemente no Recife, o Vagão Exclusivo para Mulheres nos metrôs traz à baila a questão das formas de circulação da mulher nos espaços públicos e o seu direito à cidade. 
      Nos lugares onde o vagão exclusivo já é uma realidade, os argumentos giram em torno da segurança da mulher. Em entrevista, a professora Isabel Clavelin da Universidade Católica de Brasília (UCB), expõe os aspectos positivos da medida, pois a mesma: “Compreende as diferentes necessidades que as mulheres têm em sua vida diária, no uso do transporte lotado, que é decisivo para que elas possam circular na sociedade com integridade e segurança”. Vemos aqui um deslocamento interessante, pois de fato as mulheres tem hoje necessidades específicas, as quais devemos dar os seus devidos nomes: a necessidade de vagões exclusivos para as mulheres, passa sim pela questão de segurança, mas vai bem além disso e seu vetor principal é cultural, mais especificamente na reprodução da sociedade patriarcal.
      Se historicamente a mulher burguesa só conseguiu transpor o espaço privado através do tempo, o mesmo não se pode dizer das mulheres de baixa renda. Essas estão há muito tempo nos espaços públicos tendo sua força de trabalho explorada para sua sobrevivência.
      As mulheres, independente do estrato social ao qual pertencem, são responsáveis por uma jornada sobrecarregada de deslocamentos na cidade: para além do movimento pendular casa-trabalho, a escola dos filhos e as compras, por exemplo, ainda fazem parte de uma obrigação quase exclusiva delas. Porém, os padrões de mobilidade se distinguem conforme subimos nos estratos mais altos das classes sociais. Em pesquisa feita em escolas públicas e privadas de São Paulo, constatou-se que quanto mais favorecida economicamente a mulher, mais “acessórios auxiliares” ela terá para desempenhar tais tarefas, que vão desde a posse de um carro exclusivo de seu uso (que chegam a 90% com as mães de escolas privadas) até a contratação de motoristas particulares que são delegados para o transporte das crianças. (WAISMAN, 2013).
      Ou seja, estamos falando de uma parte da população que ao mesmo tempo em que realiza um maior número de deslocamentos na cidade é a mesma que tem a sua
mobilidade mais reduzida: seja por restrição de horário, ou por lugares em que se pode andar ou não quando se está sozinha. Existe em nossa sociedade a naturalização de uma espécie “toque de recolher” tácito direcionado às mulheres, e nesse sentido não podemos descolar o vagão exclusivo como sendo mais um aparato de restrição da mobilidade da mulher.
      Devemos também levar em consideração a reprodução social que se dá em todos os espaços. Isso quer dizer que tal separação tenta forjar a solução de algo extremamente enraizado, que não educa, não impede que aconteça em outras situações, pois segundo Bourdieu:
  • A estrutura do espaço social se manifesta assim, nos mais diversos contextos, sob a forma de oposições espaciais, o espaço habitado (ou apropriado) funcionando como uma espécie de metáfora espontânea do espaço social. Em uma sociedade hierarquizada, não existe espaço que não seja hierarquizado e que não exprima as hierarquias e as diferenças sociais de um modo deformado (mais ou menos) e, sobretudo, mascarado pelo efeito de naturalização acarretado pela inscrição durável das realidades sociais no mundo físico: diferenças produzidas pela lógica social podem, assim, parecer emergidas da natureza das coisas (basta pensar na ideia de “fronteira natural”).1
      A criação do vagão exclusivo aumenta a culpabilização da mulher sobre a ação do outro, no caso o homem. Passando por cima do próprio “privilégio” que lhe foi concebido, o único motivo que justificaria sua presença em um vagão normal no horário de pico, é por de certa forma estar permissível ao tipo de abuso do qual o Estado se propôs a protegê-la. O dito privilégio é na verdade uma restrição, já que os homens possuem “impulsos incontroláveis”, as mulheres que se restrinjam a um determinado espaço.
      Não se quer dizer aqui que haja algum tipo de má intenção na criação do polêmico “vagão rosa”, mas sim que, tal situação vem sendo vista de forma descolada do contexto patriarcal do qual é inerente. Dito de outra forma, não se nega a tentativa de colocar a mulher em segurança, mas o que de fato se está fazendo é proteger o direito do homem de assediar.

1 BOURDIEU, Pierre Tradução de Ana Cristina Arantes Nasser. Revisão técnica de Fraya Frehse. O originalem francês – Espace physique, espace social et espace physique approprié – encontra-se à disposição do leitor no IEA-USP para eventual consulta. Recebido em 23.9.2013 e aceito em 5.10.2013. Revista “Estudos Avançados” – USP 2013.


Carolina Ramos Couto – Graduanda em Ciências Sociais (USP) e Estagiária de Pesquisa - DRU – CET

1 Comentários :

O foco da mobilidade urbana como fator de gênero precisa ser observada pelos governantes e exigida pela população.
Esse artigo apresentado pela Carol Ramos Couto nos convida não só a uma reflexão sobre o tema, mas a uma tomada de posição quanto aos problemas enfrentados diariamente pelas mulheres no seu ir e vir pelas cidade de São Paulo.